Mais do que Sinais: inclusão, cultura surda e a luta por um cotidiano acessível

Ser surdo não é só não ouvir, é crescer num mundo que muitas vezes se recusa a te entender.

Cresci próxima da comunidade surda. Minha avó, diretora do Instituto Helen Keller em Caxias do Sul, sempre nos apresentou esse universo, me ensinava Libras, me levava aos passeios com seus alunos e me colocava no meio deles para que eu tentasse me comunicar do jeito que dava. Era difícil, às vezes eu tinha vergonha de errar, mas eles sempre foram pacientes, me ensinavam com prazer, talvez porque fosse raro encontrar alguém que de fato quisesse aprender.

Estar ali, sem intérprete, tentando me fazer entender, me fez perceber o quanto era pesado para eles viver o oposto disso todo dia: um mundo cheio de ouvintes sem paciência, sem vontade de tentar, que os deixavam constrangidos por algo tão simples quanto pedir um lanche.

Fui entendendo que a comunidade surda acabou se tornando uma bolha, não por escolha, mas porque a sociedade construiu um mundo que os esqueceu e nunca voltou para consertar e a barreira que isso cria não é só de comunicação é de dignidade.

Viver é se comunicar e negar isso a alguém é negar muito mais do que palavras.

Surdo não é sinônimo de incapaz

Uma das maiores injustiças que a sociedade ainda comete com a comunidade surda é confundir a barreira de comunicação com limitação intelectual. Ser surdo não diz nada sobre a capacidade de uma pessoa pensar, aprender ou se desenvolver, significa apenas que ela se comunica de uma forma diferente da maioria.

Em muitas instituições de ensino, crianças surdas passam anos sendo vistas como alunos com dificuldade de aprendizagem, quando na verdade o que falta é acesso a uma comunicação adequada. Sem contato com a Libras ou com profissionais preparados, muitos estudantes acabam sendo considerados desinteressados, lentos ou incapazes, quando o verdadeiro problema está no ambiente que não foi planejado para incluí-los.

Há diversos relatos de estudantes que, após serem inseridos em espaços onde a Libras é respeitada e utilizada como língua de ensino, apresentam uma mudança significativa no desempenho escolar. Em pouco tempo, muitos conseguem desenvolver a comunicação, participar das atividades e demonstrar habilidades que antes estavam escondidas atrás de uma barreira linguística. O que antes era interpretado como dificuldade intelectual revela-se, na verdade, como falta de acesso.

Esse tipo de situação não é um caso isolado, ele representa uma realidade vivida por muitas pessoas surdas em diferentes lugares. O problema, na maioria das vezes, não está no estudante, mas em um sistema educacional que insiste em exigir que ele aprenda em uma língua que não é a sua, dentro de um ambiente que não está preparado para acolhê-lo, e depois o responsabiliza pelas dificuldades que ele enfrenta.

As barreiras que ninguém vê no cotidiano

A exclusão da comunidade surda raramente aparece em forma de agressão direta. Ela se esconde nos pequenos momentos do dia a dia e é justamente por isso que passa despercebida por quem não está acostumado a enxergá-la.

Lembro de uma vez em que minha mãe e eu vimos uma pessoa surda tentando fazer um pedido num restaurante. A atendente não sabia como se comunicar, ficou visivelmente sem jeito, e a situação foi se tornando cada vez mais constrangedora. Minha mãe precisou intervir e fazer o intermédio entre as duas. Um pedido simples, algo que qualquer pessoa faz sem pensar, virou um obstáculo que dependeu da boa vontade de alguém por perto para ser resolvido.

Em consultórios médicos, segundo relatos que coletei durante minha pesquisa, a situação pode ser ainda mais delicada. É comum que o médico ignore o paciente surdo e dirija toda a conversa ao acompanhante, como se faz com crianças pequenas. Mesmo em consultas íntimas, onde o paciente deveria ter privacidade e autonomia, a comunicação acaba passando por terceiros. A pessoa surda está presente, mas é tratada como se não fosse capaz de participar da própria consulta.

Na saúde mental, a barreira ganha outra camada. Uma pessoa da comunidade me relatou, durante a mesma pesquisa, o constrangimento de precisar de um intérprete para fazer terapia, alguém que muitas vezes é conhecido, parte do mesmo círculo social. Falar sobre sentimentos profundos, medos ou traumas com uma terceira pessoa no meio não é apenas desconfortável: é um obstáculo real para quem precisa de um espaço seguro e privado para se expressar.

Na escola, minha mãe acompanhou de perto o caso de uma aluna com perda auditiva parcial que estudava numa escola regular. Por ouvir um pouco, os pais acreditavam que ela conseguiria acompanhar as aulas normalmente, mas a realidade era outra: ela não compreendia o que era ensinado, os professores não tinham preparo para recebê-la e acabavam dando atividades simplificadas apenas para mantê-la ocupada, não porque ela fosse incapaz, mas porque ninguém sabia como de fato ensiná-la, como tinha a deficiência, também não podia ser reprovada, e foi avançando de ano sem aprender.

Com os colegas mais próximos ela ainda conseguia algum contato, mas com os demais a história era diferente: como nem todos sabiam da surdez, quando ela tentava se comunicar pelos corredores era chamada de maluca, as pessoas riam dela e se afastavam, ela não estava fazendo nada errado, estava apenas tentando existir num espaço que não foi pensado para ela.

Todas essas situações têm um nome: capacitismo. É a crença, muitas vezes inconsciente, de que pessoas com deficiência são menos capazes e que, portanto, merecem menos atenção, menos paciência e menos dignidade. Ele aparece no médico que fala com o acompanhante, na atendente que recua, no professor que simplifica, nos colegas que riem, nem sempre é cruel por intenção, mas machuca do mesmo jeito.

Uma luta que nasceu no Rio Grande do Sul

No Rio Grande do Sul, a luta pela acessibilidade da comunidade surda também tem uma história marcada por resistência e persistência. Em Caxias do Sul, uma das cidades que se tornaram referência no estado na defesa dos direitos das pessoas surdas, surgiram movimentos que ajudaram a transformar a invisibilidade em debate público.

Entre essas vozes está a de Carilissa Dall’Alba, surda de nascença, que em 2005 iniciou a campanha “Legenda para quem não ouve, mas se emociona”. A mobilização defendia algo simples, mas por muito tempo tratado como secundário: o direito de pessoas surdas também viverem plenamente a experiência do cinema. Foram anos de reivindicações até que, depois de mais de uma década de insistência, o Festival de Cinema de Gramado passou a oferecer sessões com legendas acessíveis, reconhecendo um direito que sempre deveria ter existido.

Esse movimento não surgiu isoladamente, em cidades como Caxias do Sul, profissionais da educação, familiares e membros da própria comunidade surda participaram dessa construção silenciosa, ajudando a ampliar o debate sobre inclusão muito antes de o tema ganhar maior visibilidade. Não por acaso, Caxias do Sul tornou-se a única cidade do Rio Grande do Sul com legislação municipal que exige legendas em sessões de cinema, mostrando como a mobilização local pode produzir mudanças concretas.

Mesmo com alguns avanços, o acesso à educação bilíngue ainda permanece concentrado em poucas regiões do Rio Grande do Sul, as principais escolas de referência para estudantes surdos estão localizadas em cidades como Porto Alegre, Pelotas e Caxias do Sul, obrigando muitas famílias do interior a enfrentar longos deslocamentos ou, em muitos casos, a abrir mão de um ensino adequado em Libras. Quando a inclusão depende da condição financeira ou da cidade onde alguém nasceu, ela deixa de ser um direito e passa a ser um privilégio.

Quando a tecnologia começa a ouvir

Se a sociedade ainda não aprendeu a incluir plenamente, a tecnologia tem tentado preencher algumas dessas lacunas. Nos últimos anos, surgiram ferramentas digitais que buscam facilitar a comunicação entre surdos e ouvintes, ampliando o acesso a espaços que antes eram completamente inacessíveis.

Entre as iniciativas brasileiras, destacam-se:

  • VLibras: plataforma gratuita desenvolvida pelo governo federal em parceria com a UFPB, que traduz conteúdo digital em português para Libras automaticamente. Pode ser instalada em sites, aplicativos e computadores, tornando os portais públicos e privados mais acessíveis.
  • Hand Talk:  aplicativo brasileiro premiado internacionalmente que utiliza um avatar 3D para traduzir texto e voz para Libras em tempo real, funcionando como um intérprete digital de bolso.

Pesquisadores brasileiros também têm avançado no uso de inteligência artificial para o reconhecimento de sinais por visão computacional, sistemas que, através da câmera de um dispositivo, identificam os movimentos das mãos e os traduzem para texto ou voz (SOUSA; JUNIOR, 2025). Essa área ainda enfrenta desafios técnicos importantes, como a variação regional dos sinais e a dificuldade de capturar expressões faciais, que em Libras têm função gramatical.

É importante, porém, não romantizar essas soluções. Um aplicativo de tradução não substitui um intérprete humano numa consulta médica, assim como uma legenda gerada automaticamente não garante a mesma qualidade que uma produzida por um profissional. A tecnologia é um avanço real, mas ela funciona melhor como complemento a políticas públicas e formação humana do que como substituta delas.

Mais do que ouvir é preciso compreender

Falar sobre tradução e apoio à comunidade surda é falar, acima de tudo, sobre respeito. Durante muito tempo, a surdez foi tratada apenas como uma deficiência a ser corrigida, quando na verdade ela também representa uma identidade cultural, uma língua própria e uma forma legítima de estar no mundo.

Ao longo deste texto, fica evidente que muitas das dificuldades enfrentadas por pessoas surdas não nascem da falta de audição, mas da falta de preparo da sociedade para incluí-las. A ausência de intérpretes, de legendas, de profissionais capacitados e de espaços realmente acessíveis transforma situações simples em barreiras constantes.

Embora existam avanços importantes, como o fortalecimento da Libras, o uso de novas tecnologias e a luta de pessoas que dedicaram anos à causa da acessibilidade, ainda há um longo caminho a percorrer. A verdadeira inclusão começa quando a comunicação deixa de ser vista como um favor e passa a ser entendida como um direito.

Mais do que aprender sinais, incluir é aprender a enxergar o outro com dignidade.

Fonte de referências:

Baseado em: BRASIL. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002 — Língua Brasileira de Sinais (Libras). Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10436.htm

Baseado em: DALL’ALBA, Carilissa. Legenda para quem não ouve, mas se emociona. Revista Arco, UFSM, ago. 2018. Disponível em: https://www.ufsm.br/midias/arco/legenda-para-quem-nao-ouve-mas-se-emociona

Baseado em: INSTITUTO ELDORADO. Voice2Sign: tecnologia brasileira de tradução para Libras é apresentada no AI for Good 2025. Disponível em: https://www.eldorado.org.br/noticia/voice2sign

Baseado em: SOUSA, C. H. S.; JUNIOR, G. B. Tecnologias assistivas e inteligência artificial para tradução e ensino de Libras. Revista Contemporânea, v. 5, n. 2, 2025.

Baseado em: IBGE. Censo Demográfico 2010: características gerais da população, religião e pessoas com deficiência. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. Disponível em: https://www.ibge.gov.br

Autora Eduarda Pinto Lovato

Texto desenvolvido para Micreiros.com.br

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